Entrevistas técnicas em IB, PE, Asset Management e Equity Research no Brasil cobram domínio consistente de contabilidade, valuation e raciocínio financeiro aplicado a empresas reais. Quem entrevista espera que você conecte demonstrações financeiras, explique premissas e chegue a um número defensável.
1. Contabilidade: DRE, balanço, fluxo de caixa e interligações
O núcleo das entrevistas técnicas é saber navegar entre DRE, balanço patrimonial e fluxo de caixa.
Pontos cobrados com frequência:
- DRE: receita, custo, EBITDA, EBIT, lucro líquido, impostos
- Balanço: ativos circulantes, estoques, contas a receber, imobilizado, dívida bruta e líquida, patrimônio líquido
- Fluxo de caixa: CFO (operacional), CFI (investimentos), CFF (financiamento)
- Interligações: como lucro líquido vira caixa, como depreciação impacta as três demonstrações
Exemplos de perguntas:
- "Explique como um aumento de R$ 100 em depreciação impacta DRE, balanço e fluxo de caixa".
- "Uma empresa faz um capex de R$ 50. O que acontece nas três demonstrações no momento do investimento?".
- "O que muda em working capital quando uma varejista aumenta prazo para clientes de 30 para 60 dias?".
Entrevistas de IB e PE tendem a ir mais fundo em working capital: ciclo financeiro, necessidade de capital de giro e impacto no fluxo de caixa livre. Em Equity Research, é comum pedirem para você conciliar lucro contábil e geração de caixa em empresas específicas da B3.
2. Valuation: DCF, múltiplos e noções de LBO
2.1 DCF (Fluxo de Caixa Descontado)
Você precisa saber estruturar um DCF simplificado:
- projeção de receita, margem EBITDA, capex, variação de working capital
- cálculo de FCFF (fluxo de caixa livre para a firma)
- uso de WACC como taxa de desconto
- valor terminal (perpetuidade ou múltiplo de saída)
Exemplos de perguntas:
- "Quais são os passos para montar um DCF simplificado para uma empresa de energia listada na B3?".
- "Explique o que entra no WACC e como o nível de alavancagem influencia o custo de capital".
2.2 Múltiplos
Conheça os principais múltiplos e em quais setores brasileiros são mais usados:
- EV/EBITDA: padrão em utilities, infraestrutura, varejo alimentar
- P/L: bancos, seguradoras, empresas maduras de consumo
- P/VP: bancos e financeiras
- EV/Receita: tech, e-commerce com lucro ainda baixo
Perguntas comuns:
- "Por que o mercado usa mais EV/EBITDA do que P/L para concessionárias de rodovias?".
- "Compare duas elétricas com EV/EBITDA diferentes e explique por que uma pode negociar com prêmio".
2.3 LBO básico (mais comum em PE e IB)
Mesmo sem modelar em Excel, você precisa entender a lógica:
- uso de dívida para comprar a empresa
- amortização da dívida com o próprio caixa gerado
- retorno (IRR) vindo de deleverage + múltiplo de saída + crescimento
Perguntas típicas:
- "O que faz um LBO funcionar no Brasil em termos de geração de caixa e múltiplo de entrada?".
- "Como a taxa de juros brasileira afeta a viabilidade de um LBO?".
3. Raciocínio financeiro: EBITDA, ajustes e qualidade do lucro
3.1 Por que EBITDA
Entrevistadores querem ver se você entende o uso e as limitações do EBITDA:
- aproximação do caixa operacional antes de capex e impostos
- comparabilidade entre empresas com estruturas de capital diferentes
- não captura working capital, capex de manutenção, impostos e itens não recorrentes
Perguntas típicas:
- "Por que usamos EBITDA em valuation de infraestrutura no Brasil e quais são as limitações?".
- "Dê exemplos de ajustes de EBITDA em uma transação de M&A" (itens não recorrentes, reestruturações, ganhos/losses não operacionais).
3.2 Working capital e ajustes de caixa
Você deve saber:
- diferenciar lucro e caixa
- explicar variações de contas a receber, estoques e fornecedores
- discutir empresas com forte geração de caixa via capital de giro (ex.: varejo alimentar, telecom pré-pago)
Exemplos de perguntas:
- "Uma empresa aumentou o lucro, mas o caixa operacional caiu. Quais hipóteses explicam isso?".
- "Como uma mudança na política de estoques impacta valuation em um modelo de DCF?".
4. Perguntas de "quanto vale X empresa" por área
Aqui o objetivo não é acertar o número exato, mas mostrar método, premissas e bom senso com o contexto brasileiro.
Investment Banking (IB)
- "Quanto vale a Ambev hoje?" → Espera-se: múltiplos (EV/EBITDA vs pares globais), drivers (volume, mix, câmbio), discussão de prêmio/desconto.
- "Você foi contratado para ajudar na venda de uma empresa de saneamento regional. Como começaria a pensar no valuation?".
Private Equity (PE)
- "Quanto você pagaria por uma rede de clínicas médicas de médio porte no Brasil?" → Espera-se: visão de tese (crescimento orgânico, M&A), alavancagem possível, faixa de múltiplo vs comparáveis listados (Rede D'Or, Hapvida) com desconto de liquidez.
- "Como a estrutura de capital (dívida vs equity) impacta o retorno do fundo?".
Asset Management (AM)
- "Você compraria ações de uma small cap de varejo de moda hoje? Qual múltiplo máximo pagaria?".
- "Explique a diferença entre uma tese de valor e uma tese de crescimento usando exemplos da B3" (por exemplo, utilities vs tech/educação).
Equity Research (ER)
- "Qual é o principal driver de valuation de bancos brasileiros hoje?" (spread, inadimplência, capital regulatório, fee income).
- "Explique por que duas empresas de shopping centers podem negociar a múltiplos diferentes" (localização, ocupação, custo de capital, pipeline de desenvolvimento).
O ponto comum em todas as áreas é mostrar que você sabe conectar demonstrações financeiras, valuation e contexto setorial brasileiro para chegar a uma faixa de valor justificada.
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